Qualquer coisa!

Corria mais que imaginava ser humanamente possível. À direita o muro mais alto que já vira, à esquerda o perfume mais doce. O contraste era perturbadoramente maravilhoso, enchia meus sentidos com certezas que despertavam a curiosidade de ser incerto. Cada falha no cimento me remetia à imagem de uma pétala que exalava o perfume. Na verdade, os olhos não alcançavam as flores. Mas meu olfato apalpava cada fibra e percebia cada vibração que formava as diversas cores cintilantes. O pólem enchia meus ouvidos e o cimento meus pulmões, numa sintonia que cantarolava o ninar de minha mãe.

Embalado por essa sinfonia misteriosa, corria. O tempo parecia não existir apesar de ser o propulsor das minhas pernas. Não as sentia. Me vi na beira de um precipício gramado, o muro continuava e o perfume se intensificava. As pernas, estáticas. Precisava continuar. O único caminho aparente era um arbusto de espinhos.

Cordas aveludadas de cetim emaranhadas entre si emanavam espinhos de luz e fluíam como ondas, suaves e arrebatadoras, atravessando o abismo do oculto com graça. Era tentadoramente deliciosa a ideia de surfar em sua crista, mas o perigo era iminente. Eu temia. Temia me apegar demais àquela dualidade encantadora. Cedi.

No primeiro passo já consegui sentir o êxtase do fogo que ardia e aliviava ao mesmo tempo. Seu fogo era mais quente que mil sóis e purificava o ar enquanto queimava. Uma brisa fresca também brigava por espaço, incitando as chamas e curando as queimaduras.

Tudo apagou. Acordei.

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Contradição

Poesia,
ah, poesia!
Me faltam palavras pra te encontrar,
me sobram palavras pra te expressar.

Poesia,
ah, poesia!
Tão bela e tão disforme,
tão certa e tão errada.

Poesia,
ah, poesia!
Lindo é o teu nome
e mítica tua figura.
Por que foges de mim?

Poesia de sombras
Poesia de medos

Poesia,
ah, poesia!
Na eterna busca
me perco nas palavras que tento encontrar
na eterna vida
me sobra poesia pra buscar.

Poesia de luz.