Joana

Joana era uma mulher como outra qualquer. Comia, dormia, dançava, paquerava, ria, chorava, saia com seus amigos, escutava música, via TV e levava sua vida sempre com calma, dando um passo após o outro. Ela gostava muito quando alguém acariciava seu cabelo. Não tinha uma alimentação tão saudável quanto desejava, mas não chegava a ter problemas sérios com isso. Joana era apaixonada por filmes! Desde os mela-cueca até os de dar nó no cérebro, ela via todos. Também lia as notícias de vez em quando. Mas o que Joana mais gostava sem dúvida alguma era de chocolate, não vivia sem.

E dessa forma, Joana passava seus dias. Acordava, ia trabalhar, voltava pra casa, dormia e depois fazia tudo novamente. Até que um dia as coisas chegaram ao fim. Foi exatamente como dormir: aos poucos e depois de uma só vez.

Joana acordou e se arrumou para o trabalho. No caminho, se percebeu irritada com o passageiro ao seu lado no ônibus. Mau humor de sono. Chegando no trabalho, teve um dia difícil. O chefe acordou virado e resolveu descontar em todo mundo. Voltando pra casa, funk alto no ônibus. Quem não se irrita com isso? Chegando em casa, não encontrava as chaves dentro da bolsa. Cansaço de um dia longo. Ligou a TV, um filme de drama. Disseram que é bom. Chegando ao fim, lenços espalhados pelo quarto e Joana a chorar. Normal, drama bom é drama com lágrimas. Hora de dormir.

Dia novo, vida nova. Mas não necessariamente melhor. Joana se viu imaginando bater a cabeça do homem que cantarolava dentro do ônibus na janela até que ele parasse. Ele não parou. No trabalho, clientes burros. Voltando pra casa, trânsito infernal. Filme ruim e tempo desperdiçado.

Três é o número da sorte, otimismo deve ajudar. Mas não para Joana. Dessa vez, a cena em sua cabeça era uma bala na testa do cidadão que não parava de mexer no banco do lado. Reunião de pessoal, pelo menos a cadeira estava quentinha. Espera – ainda não colocaram aquecedor de assentos na sala de reunião gelada. Menstruação inesperada! A calça branca não ajudou. No banheiro em meio a resmungos, veio o esclarecimento: os dois últimos dias eram apenas TPM. Apenas? Isso era fala de homem. Malditos pensamentos enraizados de uma sociedade machista. Chocolate, a palavra mágica. Gavetas vazias, desespero aumentando. Lojinha da empresa fechada, desespero tomou conta. Ainda faltava 3 horas para o fim do expediente, Joana enlouqueceu de vez. Bateu na porta do chefe. Não, enxaqueca não foi uma boa mentira. Mas e o chocolate? Ia ter que esperar.

Três horas depois parecia que três anos haviam passado. Joana só queria chorar. Faltando 10 minutos para a hora de ir embora, alarme de incêndio. Evacuação do prédio. No local de encontro, explicação sobre o teste e instruções. Lágrimas e gritos internos em Joana como se um fogo a consumisse de dentro pra fora. Manter a pose era cada vez mais difícil e sinais de inquietação apareciam. A caminho da porta da frente, o matraca da empresa a pegou de surpresa. Quando ele morava no sul, presenciou um incêndio. Uma amiga foi parar no hospital com algumas queimaduras. No mesmo hospital, uma freira tinha um bebê. Esse filho mais tarde foi presidente da república. Brasília tem uma escola de dança perto do Palácio do Planalto, mas só gays são alunos. Falando em alunos, o colega de classe de seu sobrinho comentou que seu bairro é na favela. Imagine só, morar na favela. Lá tem muitos incêndios. Uma vez um senhorzinho disse… PARE! O exercício de incêndio na hora de ir embora já não foi suficiente, seu matraca? Joana saiu pela porta enquanto o papagaio falava sozinho. Finalmente liberdade. Mas não para Joana.

Na esquina da frente, um carro passou muito rápido em cima de uma poça de água nojenta. Pelo menos camuflou o sangue na calça branca. Lágrimas de verdade agora podiam correr junto às gotas de lama. Como se esperar 47 minutos e meio pelo maldito ônibus não fosse desagradável, o desgraçado resolveu quebrar no meio do caminho. Chovia muito. Joana notava os olhares, mas resolveu ignorar. Até que uma senhora resolveu abrir a boca. Uma moça tão nova e bonita devia procurar ajuda pra reverter sua situação de moradora de rua. O ônibus já estava parado há 19 minutos no meio do nada e fora da rota da linha. Motorista novo sempre errava naquela curva que não deveria fazer. Uma segunda pessoa decidiu exercitar seus músculos faciais e dizer que não era justo uma pessoa tão nojenta e fedida num lugar tão fechado e cheio. Deixando os outros passageiros horrorizados, Joana começou a arrancar tufos de seu cabelo enquanto cerrava os dentes. Um deles rachou com a força. Quanto mais ela tentava aliviar a raiva, mais ela sentia. Agora, ela já chorava aos soluços como um bebê com fome. E foi então que chegou o segundo final.

O que para o universo inteiro foi apenas um segundo, para Joana foi uma eternidade. Ela sabia o que estava para acontecer. E dentro dessa eternidade, ela só conseguia pensar em uma coisa. Pensava em como tantas notícias aparentemente importantes passavam despercebidas em sua vida por falta de interesse em se informar sobre o mundo. Será que o mesmo aconteceria com ela? Será que sua história também passaria despercebida aos olhos de pessoas desatentas? Será que sua história chegaria a virar notícia? Será que alguém além daquelas pessoas que estavam no ônibus com ela algum dia saberiam do que aconteceu? E será que isso permaneceria na memória dessas pessoas? Nada disso importava mais. Era chegada a hora.

BBBBBBUUUUUUUUUMMMMMMM!!!!!!!!!

Joana explodiu de TPM.

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