“The life of the animal is only a fragment of the total life of the universe”. Then what about suicide? A fragment of the universe would be destroying itself? No, not destroying; it couldn’t destroy itself even if it tried. It would be changing it’s mode of existence. Changing… Bits of animals and plants become human beings. What was one day a sheep’s hind leg and leaves of spinach was the next part of the hand that wrote, the brain that conceived the slow movement of the Jupiter Symphony. And another day had come when thirty-six years of pleasures, pains, hungers, loves, thoughts, music, together with infinite unrealized potentials of melody and harmony had manured an unknown corner of a Viennese cemetery, to be transformed into grass and dandelions, which in their turn had been transformed into sheep, whose legs had in their turn been transformed into other musicians, whose bodies in their turn…

– Point Counter Point, Aldous Huxley

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Qualquer coisa!

Corria mais que imaginava ser humanamente possível. À direita o muro mais alto que já vira, à esquerda o perfume mais doce. O contraste era perturbadoramente maravilhoso, enchia meus sentidos com certezas que despertavam a curiosidade de ser incerto. Cada falha no cimento me remetia à imagem de uma pétala que exalava o perfume. Na verdade, os olhos não alcançavam as flores. Mas meu olfato apalpava cada fibra e percebia cada vibração que formava as diversas cores cintilantes. O pólem enchia meus ouvidos e o cimento meus pulmões, numa sintonia que cantarolava o ninar de minha mãe.

Embalado por essa sinfonia misteriosa, corria. O tempo parecia não existir apesar de ser o propulsor das minhas pernas. Não as sentia. Me vi na beira de um precipício gramado, o muro continuava e o perfume se intensificava. As pernas, estáticas. Precisava continuar. O único caminho aparente era um arbusto de espinhos.

Cordas aveludadas de cetim emaranhadas entre si emanavam espinhos de luz e fluíam como ondas, suaves e arrebatadoras, atravessando o abismo do oculto com graça. Era tentadoramente deliciosa a ideia de surfar em sua crista, mas o perigo era iminente. Eu temia. Temia me apegar demais àquela dualidade encantadora. Cedi.

No primeiro passo já consegui sentir o êxtase do fogo que ardia e aliviava ao mesmo tempo. Seu fogo era mais quente que mil sóis e purificava o ar enquanto queimava. Uma brisa fresca também brigava por espaço, incitando as chamas e curando as queimaduras.

Tudo apagou. Acordei.

insana

Ela te pega, te devora, te tira de si
ela passa
avassala
arranca teu peito do coracão.

Fico assim calminha
Fico assim mansinha
Fico assim.

Morro assim, me perco assim e vivo assim.
Sobrevivo.
Vivo? No fogo que queima, talvez.

No fogo que queima que arde que agarra
que pede que passa que volta
que apaga que acende que mantém a vida acesa enquanto a chama passa
na brisa que levanta revive reclama
no vento que para te acalma te chama
na terra que corre que foge impulsiona
na água que salva que mata que afoga
no tempo que come que perde que muda
no tempo que volta traz de volta dá a volta
vive em volta
No tempo.

No tempo.

Passa o tempo.

Na vida atua. Na arte, vive.
E vive e ama e sente e deixa e solta
intensa completa repleta plenitude do ser…
É!
Acorda.